Bleidi por trás do balcão, limpando os copos. Na bancada à frente Tom (de Space Oddity de David Bowie) e Dita (de Erotica, da Madonna). Ao fundo, no começo da cena, Rape Me, do Nirvana

Tom :
adoro esse clima. dificulta um pouco a visibilidade, mas é agradável. Me lembra do escuro...
[gole na cerveja]
sabe onde é realmente escuro?
Dita :
Dentro de você?
[pega o isqueiro e fica brincando com ele, acendendo e apagando]
Tom :
Wow![suspira] profundo, mas eu ia dizer o Espaço.... Prazer [estende a mão], Major Tom!
Dita diz:
[olha de rabo de olho, sorri e estende a mão, te cumprimentando com a ponta dos dedos] Dita.
Eu ia dizer que acho que te conheço de algum lugar, mas ia parecer uma cantada idiota.
Tom diz:
não sei se já apareci na TV... [se virando um pouco de lado, dando com os ombros]
e eu aceitaria qualquer cantada sua.
[diminuindo o tom de voz, mas a deixando mais firme, enquanto tira a ponta do rótulo da cerveja]
Dita diz:
[ri] é, acho que já te vi em algum lugar. ou li seu nome no jornal.
nos obituários, talvez? [faz olhar de desprezo]
Tom diz:
queira Deus que não [recuperando uma pose "militar"]
ainda tenho uma missão a cumprir.
Dita diz:
[tira o chicote que está preso na bota e o coloca no colo] [olha pra frente, com o olhar perdido] E qual seria?
Tom diz:
[sorri contido, como se fosse íntimo do masoquismo]
vou por Espaço...
ver o escuro de perto.
[segurando o seu isqueiro e tentando deixar fechado]
Dita diz:
queria poder ir pro espaço também... mas não tenho condições.
e... o que o "escuro espacial" [fala ironizando] vai te acrescentar?
Tom diz:
não sei ao certo.
é uma ambição vital.
ficar suspenso, nas trevas.
talvez seja pra fugir da metáfora e saber como realmente cada um de nós se sente quando se chega em casa, no fim de um dia chato.
[apoiando os cotovelos sobre a mesa e escorregando, pra apoiar-se, abaixando à altura do seu queixo, com olhar no chicote]
Dita diz:
[olha pra você e olha pro chicote] é pra isso mesmo que ele serve.
e todos os dias são chatos.. quando se volta pra casa. ou às vezes antes mesmo de sairmos dela.
devia existir uma lei da existência, algo do tipo, que falasse sobre os dias chatos e intermináveis.
os dias parecem que duram anos. [suspira, apóia os braços no balcão e deita sobre eles]
Tom diz:
[levantando, após estranhar vc se abaixar tbm. Mas ainda olhando pro chicote]
acho que tbm tem isso.
no espaço o tempo é outro.
é relativo, como diz na física.
talvez possamos fazer uma fórmula pra colocá-lo em função da nossa vontade de adiantá-lo.
[levantando a mão pra pedir mais bebidas]
posso pagar-te algo, antes de sairmos?
[sorriso reto, bem disciplinar]
Dita diz:
pode.
[fica agoniada e olha pros lados]
tá muito frio.
e eu preciso de companhia.
Tom diz:
o que vai querer?
Dita diz:
o que for mais forte.
Tom diz:
Bleidi, traga duas tequilas e dois conhaques, pra nos aquecer.
[acenando sobre a Dita]
Dita diz:
acho que um conhaque é bom, vai me ajudar a trabalhar mais tarde.
Tom diz:
trabalhar?
[risada solta]
pensei q viria comigo, não?
Dita diz:
mas esse é o meu trabalho. ou você acha que eu iria de graça?
eu posso ser sua anfitriã essa noite, se quiser.
[séria]
Tom diz:
ótimo
[ficando sério também]
acho q já frequentei quase todos lugares com minha esposa, quando ainda éramos jovens e esperançoso
e a última coisa q quero agora é me lembrar dela.
Dita diz:
e onde ela está agora? morta?
Tom diz:
Você tem obsessão por mortes, não?
[apertando o copinho de tequila entre os dedos e mordendo o lábio inferior]
Ela está em casa.
Dita diz:
só a morte liberta. [passa os dedos pela bordinha do copo]
eu acho que você devia dar um jeito nela... na sua mulher.
Tom diz:
libertar totalmente? Sim.
mas quando voltar já te posso falar da ausência do fardo da gravidade.
[aliviando a mordida e levemente deixando a língua pra fora]
Quanto a dar um jeito...
[risos frouxos]
Estou com medo de família agora, sabe?
por isso estou aqui, nesse horário, antes de aproveitar o último dia longe da estação
você tem família, Dita?
Dita diz:
não tenho.
morreram todos.
[ri alto]
mentira.
Tom diz:
[vira a tequila]
[ri e aperta a cintura com a mão ao lado dela, enquanto a oposta aperta a abotoadura do pescoço]
as vezes penso como conciliei a idéia de ter uma família com esse meu senso exploratório.
Dita diz:
eu sei como.
[continua rindo]
porque você é defensor do moralismo e da chatice conservadora da direita que visa dominar o planeta unilateralmente...
mas por baixo, é um crápula, sujo e imundo
que chora quando brocha e precisa apanhar.
[vira a tequila]
Tom diz:
[aperta mais a cintura]
deve ser isso que os outros chamam de amor, não?
[soltando]
e nós já dominamos o mundo!
[olhando pra bandeira no quepe, sobre o balcão]
Dita diz:
algumas pessoas dominam .
e outras como VOCÊ obedecem!
achando que estão no comando.
pra apertar minha cintura você precisa pagar.
[acende um cigarro]
e essa bandeira é feia.
Tom diz:
não se preocupe com o dinheiro.
e essa bandeira diz q posso comandar tanto quanto você, com esse chicote.
o que não difere sua podridão da minha...
[sorrindo e acariciando por trás da orelha dela, enquanto puxa a carteira]
Dita diz:
eu sou só uma garota má, bêbada às 18h
que beija qualquer estranho.
desculpa, fumei muito hoje
e não sou feliz.
[fecha os olhos e deita o rosto na sua mão]
Tom diz:
e eu sou um garoto de reformatório que aprendeu a hora certa de fazer uma continência e a hora certa de pagar um boquete.
Nós nunca saberemos o que é a felicidade!
Dita diz:
talvez porque ela não exista.
Tom diz:
[afastando a tequila e aproximando o conhaque]
ou porque ela foi pra lua também!
[aproximando lentamente do seu pescoço]
e quem sabe eu volte de lá com ela na mochila e deixo essa bandeira ,que você diz ser imunda, em troca
[morde]
Dita diz:
[ri e olha pro alto]
se quiser morder, é melhor que morda cada vez mais fundo.
mas aqui não é o lugar apropriado
você aceita ser comido?
Tom diz:
à essa altura?
[respira. sorri de um lado do rosto]
...sim...
acho q é o mínimo que posso fazer pra pagar minha megalomania, sabe?
Porque se quando eu estiver lá e ver q não há felicidade nem mesmo na lua eu gostaria de lembrar de uma foda, mas falar de amor
Dita diz:
olha, desculpa te desapontar ;
mas não vai existir felicidade nenhuma lá.
é só um...
grande vazio ...
com uma beleza disfarçada.
acho que você devia tentar se matar.
é o melhor a fazer
pessoas como você não vão ser felizes nunca
então, pra que tentar? [dá um sorriso doce, sem mostrar os dentes]
Tom diz:
[selinho]
vou tentar por pessoas como você. E se não há esperança alguma, que seja eu a dizer isso, com toda a certeza q se possa ter.
E quem sabe assim o meu vazio se liga ao vazio de lá e dispensamos assim os disfarces de beleza...
[bebe o conhaque, à goles]
Dita diz:
quer saber de uma coisa?
você vai se apaixonar por mim,
igual a todos os ricos babacas
que eu atendo diariamente.
E aí vai constatar mais ainda que sua vida não vale nada...
... vai me encher de presentes que eu vou jogar no lixo ...
e vai achar que é interessante... mas não passa de um monte de...
nada!
E eu estou meio alterada.
[bebe o conhaque a goles também]
Tom diz:
não se preocupe com isso
nada me fascina mais que a chance de ir lá
[olha pra cima, cerrando os olhos no teto]
depois de me comer, não me ligue
[pisca]
Dita diz:
nem pretendia fazê-lo
tá chovendo de novo... e sua mulher deve estar te esperando.
Tom diz:
então vamos saindo logo daqui
não quero q você seja rápida
mas ainda tenho algumas malas pra pegar
[tirando de novo a carteira com uma mão enquanto chama o garçom com outra]
Dita diz:
[coloca a mão no meio das pernas do Tom e aperta, enquanto o olha bem na cara]
você é um viado, sabia?
paga logo isso, porque eu tenho muito trabalho pela frente.
Tom diz:
eu sou um Major, sabia?
[abandonando o dinheiro no balcão]
[desce a mão, te imitando]
Bleidi! o troco é teu. Vê se compra discos novos pra essa jukebox. Tocou esse tal de grunge umas 8 vezes...
[levantando]
Dita diz:
[levanta, coloca o chicote preso na bota e anda na sua frente]
[pára na porta, olha pra trás] você vem ou não vem? eu não tenho a noite toda.
Tom diz:
[segue, silenciosamente, com um sorriso amarelo no rosto]